1. Cronograma

a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a a

2. Introdução

O conceito de modernidade indica uma ruptura: a ruptura da sociedade tradicional. Normalmente, usamos a palavra modernidade para falar de uma ruptura histórica específica: a passagem, na Europa, das organizações políticas feudais para as organizações políticas centralizadas que chamamos tipicamente de Estados nacionais. Estudaremos essa descontinuidade e seus impactos na vida contemporânea, mas não devemos perder de vista que a principal marca da sociedade atual é que “a rapidez da mudança em condições de modernidade é extrema” (Giddens 1991).

Um dos fatores que explica esse ritmo acelerado de mutação é a existência de um aparato tecnológico que se modifica intensamente a cada década e que modifica intensamente as nossas relações sociais.

Eu nasci em uma sociedade sem internet. Eu cresci em uma sociedade em que telefones celulares eram pensados como algo tão distante quanto as viagens interestelares. Eu me tornei adulto em uma sociedade sem whatsapp, sem instagram, sem facebook, sem tinder: sem nenhuma dessas plataformas de comunicação imediata nas quais operam muitas das interações sociais contemporâneas. Se eu tiver sorte, serei ainda testemunha das catástrofes ambientais decorrentes da mudança climática e dos abalos sísmicos que a inteligência artificial causará nos mercados de trabalho.

Com sorte, essas mesmas coisas serão vistas também por meu pai, que quando criança viajava a cavalo para passar férias na casa do meu bisavô, no interior da região norte do Brasil. Meu pai nasceu em 1951, quando os EUA tinham escolas segregadas (Brown v. Board of Education é de 1954), havia mais de 20 colônias europeias na África, as mulheres casadas no Brasil somente podiam exercer uma profissão com autorização prévia do marido (o Estatuto da Mulher Casada, que muda essa situação, é de 1962)  e a homossexualidade era crime na Inglaterra (é de 1967 o Sex Offence Act, que legalizou a relações homossexuais praticadas entre maiores de 21 anos).

Foi nesse mundo tão diverso do nosso que a maioria dos atuais ministros do STF nasceu e foi educada. Juristas que foram socializados em um contexto social tão diversos, que desenvolveram valores e sensibilidades adequadas ao ambiente em que estavam inseridas há 50 anos, precisam julgar questões que muitas vezes desafiam esses valores e desbordam dos conceitos com os quais elas se acostumaram a observar a realidade.

Esse vertiginoso ritmo de mudanças faz com que, muitas vezes, a sensibilidade de uma pessoa tenha grandes diferenças com relação às percepções típicas das pessoas de uma geração mais antiga ou mais nova. Essas diferenças nos interessam porque a filosofia se desenvolve, a cada momento, discutindo os limites das percepções sociais hegemônicas.

A filosofia é útil quando nos desafia, especialmente quando explora as tensões internas que existem nas nossas visões de mundo. Cada um de nós tem uma sensibilidade construída a partir de fatores heterogêneos, que não formam um sistema unificado, e sim um mosaico repleto de incongruências que nos passam despercebidas porque cada peça do mosaico nos é familiar. O estudo da filosofia tende a nos tornar mais conscientes dessas incongruências, a perceber que existem fraturas em nossos modelos explicativos, que os conceitos que usamos são vagos, que nossa indignação moral é seletiva, que acreditamos em fatos distorcidos e que todo mundo se acha mais justo e mais objetivo do que se é.

Essas incongruências não são um objeto exclusivo da filosofia: tratam delas os artistas, os psicólogos, os religiosos, cada um a seu modo. Os filósofos normalmente lidam com essas questões a partir de uma análise dos conceitos: observamos os repertórios conceituais que recebemos das gerações anteriores (a tradição, no sentido mais literal daquilo que é transmitido) e avaliamos em que medida esses modelos explicativos são adequados ao contexto atual.

Ocorre que esses critérios de análise são muito díspares: cada perspectiva filosófica tem seus padrões e eles não são compatíveis entre si. Apesar de toda essa disparidade, ou melhor, justamente por causa de toda essa disparidade, é importante que cada um de vocês identifique os modelos explicativos que vocês tendem a usar, e que se tornem conscientes das potencialidades e dos limites desses repertórios conceituais.

O objetivo desta unidade é o de perceber algumas articulações possíveis (antigas, modernas, pós-modernas, etc.), para que vocês possam avaliar em que medida as suas perspectivas se identificam com esses paradigmas.

3. Leituras

3.1 Leitura Obrigatória

1:Costa, Alexandre. Os desafios da filosofia contemporânea. Arcos, 2020.

3.2 Leitura Sugerida

2: Costa, Alexandre. Nietzsche e a crítica aos valores absolutos. Arcos, 2020.

3: Costa, Alexandre. Freud e o mal-estar da modernidade. Arcos, 2020.

4: Costa, Alexandre. Bauman e o mal-estar da pós-modernidade. Arcos, 2020.

3.3 Leitura Complementar

1: Milovic, Miroslav. Necrópole da vida nua: paralelismos entre Agamben e Pahor. Profanações, 7, 387–393.

2: Mbembe, Achiles. Necropolítica. Arte&Ensaios, n.32, 2016.

3.3 Escuta Complementar

1: Dunker, Christian. Olavo de Carvalho. Video Falando nIsso Mesmo, n. 216, 2021.
2: Dunker, Christian. Hanna Arendt. Podcast ou Video Falando nIsso Mesmo, n. 268, 2021.
3: Dunker, Christian. Geração MiMiMi. Podcast ou Video Falando nIsso Mesmo, n. 268, 2021.

4. Atividades

4.1 Atividade em classe: Mapeando os desafios filosóficos contemporâneos

4.3 Blog: Publicação da página do grupo