Autores: Carlos Alberto Rabelo Aguiar, Guilherme Domingos dos Reis, Adriano Augusto Araújo Magalhães, Jhonas de Sousa Santos, Rebeca Cristina Pereira Araújo e Raíck Junio dos Santos Silva.

​ A informação na modernidade assume um paradigma de contingência e poder, sobretudo no campo das ciências humanas, estudiosas das ciências morais, com crucial importância. O quadro pandêmico que vivenciamos evidencia com maestria as diversas miradas no mosaico social: quem pode “decretar” a existência ou não-existência de um vírus? De repente, as ciências naturais, que num percurso de séculos ininterruptos gozavam da primazia da palavra do que é e do que deixa de ser, veem-se condenadas à cadeira do júri das redes sociais, sob a mira de fakes news disparadas por bots e programas computacionais de algoritmos políticos.

​ Muito se tem refletido sobre a validade do saber científico. Num país como o Brasil, em que a educação é mercantilizada para alguns e precarizada para muitos, o júri popular do saber científico não se valerá do que entendemos por imparcialidade. A parcialidade, a subjetividade, o eu-indivíduo, “a menor minoria”, para alguns, derroga toda a tradição da comunidade científica, do fazer científico, em simples cliques verborrágicos de percepções pessoais. A desqualificação está servida como valor de troca num cenário de confinamentos forçados por normas político-jurídicas validadas pelo [suposto] saber científico.

​ O que era pensado como dado, hoje, necessita se confessar (FOUCAULT, 1988). O uso do verbo “confessar” é intencional, de lógica cristã, o confessionário da ciência ainda está adstrito ao poder das hordas espirituais. Por séculos, as sociedades ocidentais buscaram racionalmente a separação do Estado e da Igreja. Hoje, está provada a indissociabilidade dessa relação em um país subdesenvolvido como o Brasil. A palavra do pastor (o sábio de uma comunidade religiosa) vale mais que a do profissional de biologia, pós-doutorado em microbiologia (o filósofo, em termos didáticos) pela Universidade de Yale. Tanto que igrejas das mais diversas crenças não foram obrigadas a se submeterem a lockdown em vários estados brasileiros.

​ Hernández-Mansilla (2011), refletindo sobre a origem da subjetividade por meio do racionalismo cartesiano, pontua que a reforma de Lutero provocou uma “revolução intelectual nos pilares da teologia tradicional e influenciou a vida cultural dos homens, especialmente na filosofia” (HERNÁNDEZ-MANSILLA, 2011, pág. 200). Tal afirmação nos permite compreender que o racionalismo cartesiano, sob a égide da ética protestante, assume protagonismo numa sociedade cristã como a brasileira. A mera influência, claro, não dá conta dos obstáculos que a relação apresenta, porém, podemos dialogar em como as especificidades que o quadro de deslegitimação instaurado tem proporcionado dificuldades epistemológicas difíceis de serem conciliadas na arena política.

​ O primado da dúvida permitiu que chegássemos até aqui, mas sob quais pressupostos? A imutabilidade platônica pode ser a ponte que necessitamos. Duvidar por duvidar não possui qualquer respaldo racional, especialmente para Descartes. Retomar, talvez, os arquétipos ideais possibilite a reconfiguração da arena viciada por interesses exógenos à coletividade, à comunidade política da democracia.

​ O desafio que se apresenta para a sociedade democrática do século XXI é a pluralidade de sujeitos, coletivos ou individuais, com objetivos e interesses soberanos, legitimados por ideais imutáveis e universais. As ideias de justiça e de verdade são interrogadas em circunstâncias de colisões sociais. Exemplos globais não faltam para o testemunho de que conceitos metafísicos possam nortear momentos como o que temos vivenciado.

​ Outra perspectiva de se pensar o modo como obtemos informação acerca da realidade é por meio da utilização do método indutivo. Tal método, o qual teve em Aristóteles um de seus principais praticantes, caracteriza-se pela observação dos fenômenos físicos para, a partir de sua regularidade, construir um conceito geral acerca do que se está refletindo.

​ É importante salientar que Aristóteles está inserido no contexto de estabelecimento da racionalidade como mecanismo de conhecimento da verdadeira ordem natural das coisas. O filósofo surge, pois, como um contraponto tanto ao sábio quanto ao sofista: ataca a verdade tradicional, daí seu caráter revolucionário, mas em busca de uma verdade racional, obtida por meio da retórica e dos instrumentos argumentativos aprimorados pelos sofistas (COSTA, 2020, págs. 8-9).

​ Assim, a base lógica e racional que permeia o método indutivo aristotélico é expressa, principalmente, nos conceitos de ato e potência. Conforme ensina o Estagirita:

(...) de todas as coisas que nos vêm por natureza, primeiro adquirimos a potência e mais tarde exteriorizamos os atos. Isso é evidente no caso dos sentidos, pois não foi por ver ou ouvir frequentemente que adquirimos a visão e a audição, mas, pelo contrário, nós as possuíamos antes de usá-las, e não entramos na posse delas pelo uso. (ARISTÓTELES, 1991, pág. 27).

​ Assim, depreende-se que a observação é importante para a obtenção do conhecimento porque é por meio desta que os atos se concretizam. E, sendo estes uma variação da potência que os origina, conhecendo-se os atos é possível conhecer a potência de determinada coisa.

​ Em relação à aferição de veracidade sobre a eficácia das vacinas contra a COVID-19, por exemplo, o espectro da proteção conferida pelas mesmas materializa-se na quantidade de anticorpos produzidos pelo organismo após a aplicação do referido método preventivo. A quantidade de anticorpos produzidos é, então, um ato verificável. Por meio deste é que se pode chegar a constatação de que dito imunizante protege contra a referida doença, ou seja, que este tem a potencialidade de proteção do indivíduo frente ao vírus, quando comparado àquele que não foi vacinado. Essa relação de interdependência e de causalidade entre ato e potência, decorrente do uso de uma lógica racional, é o que confere a possibilidade do método indutivo se contrapor à uma abordagem tradicional, seja ela a das explicações mitológicas gregas, seja ela a da doutrina cristã ortodoxa.

​ Ao propor uma conexão entre o mundo sensível e o mundo inteligível, em uma espécie de “verificação em dois fatores” acerca das informações obtidas pelo indivíduo, a indução aristotélica teve impacto sobre o empirismo moderno e sobre a formatação do método científico. Entretanto, essa influência não deve ser entendida de um ponto de vista evolutivo, uma vez que tratam-se de contextos sociais, culturais e políticos bem distintos entre si. Assim, é preciso enxergar as descontinuidades e a autonomia dos vários tipos de pensamento filosófico (COSTA, 2020, pág. 2).

​ De qualquer maneira, o desenvolvimento da ciência tal qual a conhecemos hoje absorveu traços do método indutivo aristotélico, no que tange às formas de apreensão e tratamento das informações acerca da realidade. Como exemplo, pode-se citar a corrente filosófica conhecida como empirismo. Segundo essa corrente:

(...) Primeiramente, a criança tem percepções concretas. Com base nessas percepções, vai aos poucos formando representações e conceitos gerais. Estas, portanto, desenvolvem-se organicamente a partir da experiência. Seria inútil procurar por conceitos que já estivessem prontos no espírito ou que se formassem independentemente da experiência. A experiência aparece, assim, como a única fonte do conhecimento. (HESSEN, 2000, págs. 40-41)

​ Dessa forma, filósofos como David Hume e John Locke, assim como cientistas como Isaac Newton e Galileu Galilei, de certa maneira, lapidaram a noção aristotélica de observação da realidade para uma posterior generalização de hipóteses. A conformação que a indução aristotélica dá ao processo de conhecimento é que permite, pois, uma compreensão fundamentada acerca dos fenômenos físicos.

​ Entretanto, a perspectiva aristotélica não se preocupa apenas com a apreensão das informações sobre a realidade, como também com o correto uso das mesmas. Em um contexto em que a obtenção de conhecimento de qualidade, em meio à uma miríade de notícias falsas e de manipulações, propicia uma ação melhor embasada e legitimada, como é a contemporaneidade, resgatar a ética do Estagirita não soa tão anacrônico quanto pode parecer.

​ A reflexão ética aristotélica parte da noção de felicidade. Mas “(...) ele não está buscando descobrir o que as pessoas normalmente chamam de felicidade, mas o que é a felicidade.” (COSTA, 2020b, pág. 7, grifo no original). Dessa forma, no campo informacional, a preocupação de Aristóteles não seria o grau de poder ou de benefício pessoal que alguém consegue obter pelo tanto que sabe, mas de que maneira o indivíduo utiliza tal saber em relação aos seus pares.

​ Assim, a legitimidade de um saber relaciona-se ao grau de bem estar que ele proporciona. No caso do conhecimento acadêmico, por exemplo, a sua importância não reside apenas no crescimento intelectual daquele que o detém, mas na capacidade de transformação que o mesmo acarreta na comunidade em que é aplicado.

​ A ação é, portanto, o meio pelo qual se pode julgar a moralidade de um indivíduo. E essa moralidade é proveniente do hábito, uma vez que:

Com as virtudes dá-se exatamente o oposto: adquirimo-las pelo exercício, como também sucede com as artes. Com efeito, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo e tocadores de lira tangendo esse instrumento. Da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança, a bravura, etc. (ARISTÓTELES, 1991, págs. 27-28).

​ Esse julgamento moral por meio das ações, ou seja, da exteriorização social do agir humano, é uma das principais diferenças das éticas aristotélica e platônica. E, em um contexto em que a realidade é dinâmica, a adoção do método indutivo, paradoxalmente, pode levar a conclusões tidas como não racionais.

​ Mesmo depois de tanto tempo, as duas abordagens aqui expostas podem levar a resultados totalmente diversos sobre a mesma questão: como apreender, tratar e usar corretamente as informações sobre o mundo com a qual temos contato? Na ágora ou na internet, a resposta continua em aberto.
Referências: